Ben Pring revela tendências para o futuro do trabalho

Tamires Vitorio, da Revista Você S/A

Durante a década de 1990, muitos acreditavam que, no ano 2000, viveríamos em um mundo de carros voadores, teletransporte e alimentação em pílulas. Não foi isso que aconteceu.

Mas nós não conseguimos parar de especular sobre o futuro. E essa é a principal atividade do futurologista Ben Pring, vice-presidente da Cognizant, empresa especializada em tecnologia. Em entrevista para a VOCÊ S/A, o inglês comenta sobre as principais tendências do mundo do trabalho.

Quais são suas expectativas para o futuro do trabalho?

Estamos aumentando o uso da tecnologia em todas as áreas e as pessoas estão usando cada vez mais ferramentas tecnológicas. E a tecnologia vai melhorar muito algumas áreas da sociedade. Isso, é claro, fará com que o mundo do trabalho seja diferente do que vivemos. Embora algumas pessoas estejam animadas, muitas estão preocupadas. No entanto, minhas expectativas são boas. É algo muito diferente e desafiador, mas no final do dia, será positivo.

Já dá para saber quais áreas surgirão?

A realidade aumentada, por exemplo, é algo que está se desenvolvendo muito rápido e é a ideia de que, através do seu telefone, você possa ter uma gama de informações no mundo real em torno de você. Numa loja ou supermercado, você pode olhar as estantes pelo seu telefone e ele reconhecerá o que está olhando e saberá o que é.

Os varejistas já estão trabalhando para fazer com que isso se transforme numa experiência interessante. A inteligência artificial é outra área e será aplicada na área de saúde, em raios x e em exames feitos por softwares, com resultados muito mais rápidos e melhores do que os feitos por médicos humanos.

Quais empregos serão extintos?

A resposta mais simples é: quanto mais rotineiro seu trabalho é, maior a probabilidade de você ser substituído por um software nos próximos anos. Se o trabalho de um bancário é simplesmente checar a papelada, um software fará isso com mais eficiência e rapidez.

Se eu trabalhasse com isso, tentaria achar um jeito de fazer mais, de pensar em como gastar meu tempo melhor. Quem trabalha em escritórios precisa pensar nisso, pois muita tecnologia chegará para pressionar os profissionais que desempenham tarefas repetitivas.

Isso quer dizer que algumas habilidades não serão mais necessárias?

Sim. Dirigir é um exemplo. Muitas pessoas fazem sua vida dirigindo, monetizando essa habilidade de dirigir, mas, assim como não precisamos de muita gente montando cavalos, não precisaremos mais de motoristas de carros, caminhões ou ônibus.

Nos Estados Unidos, entre 40% e 60% da população dirige algum tipo de transporte. Se você for uma pessoa jovem e pensar “meu pai é taxista, eu vou ser taxista também”, não terá uma vida fácil pela frente: nos próximos anos, não será possível monetizar esse serviço como fazemos atualmente.

E quais tipos de trabalho têm menos risco de desaparecer?

Se o que você faz não segue uma rotina tão restrita, é difícil que a tecnologia substitua a sua tarefa. Um jornalista, por exemplo, está sempre mudando, contando histórias diferentes, e áreas como essa tem a chance muito baixa de substituição.

Acredito que 10% dos empregos que temos hoje serão substituídos por softwares nos próximos dez ou quinze anos, mas, ao mesmo tempo, a tecnologia criará muitas novas carreiras e as pessoas migrarão para elas. Há cinquenta anos, ninguém trabalhava do jeito que trabalhamos hoje e isso irá acontecer no futuro, também.

Que profissões vão aparecer?

Uma delas será o alfaiate digital. Nos Estados Unidos, há um crescimento grande do e-commerce, mas 40% das roupas compradas online são devolvidas porque não servem direito. Então, existe uma urgência por esse profissional.

Alguém que vá até a casa ou escritório das pessoas e as meça com um sistema digital, coloque os dados na nuvem e faça os ajustes necessários para que a pessoa fique contente com a roupa que comprou – o que aumentaria a confiança dos consumidores online.

Também surgirão os sherpas de varejo. Sherpas são uma etnia que costuma ajudar quem quer vai escalar as montanhas, indicando o caminho e carregando os equipamentos. No mundo do consumo, os sherpas vão auxiliar os clientes a navegar nas lojas com realidade aumentada, que terão cenários mais complexos do que estamos acostumados.

* Este texto foi originalmente publicado pela Revista Você S/A